Galatea of the spheres - Dalí |
Era só mais um dia
comum em Bellhell, nada de mais mesmo, seu moço, vá por mim! Só é triste
perceber que a cada fim de tarde menos crianças brincam nas ruas e há menos
gente sentada em frente ao portão, apreciando o vagar do tempo e as coisas que
vem e vão. Mas o Outro que é em mim, sempre me sussurra no pensamento, ecoa direto na
mente - que também sente! - o porvir da ideia que jaz antes mesmo de ser:
Escuta a canção que o vento te sopra, só ela irá te salvar; no horizonte a
sombra do inimigo já cresce...
Mudança rápida, no
clima da cidade e no ânimo de quem (sobre)vive nela. No céu as nuvens
são mar de cinzas. Será a benção da chuva de verão ou os ventos do
kaos, que trazem o mal entranhado em cada um que se omite - e assim também
permite - o retrocesso aos dias em que éramos uma gente que vive e respira
sempre sob a mira? Esses mesmos ventos já sopravam e traziam de volta o cheiro
morto dos esqueletos e dos fantasmas que estavam trancados no armário da
inglória memória de sessenta e tantos.
No ônibus a caminho
do ato - grito isolado contra o porvir horrendo que pode tomar conta de nossas
vidas -, a tensão que paira e deixa a realidade mais lenta, vai dando lugar ao
brilho estranho do último dos males a ficar preso no jarro daquela que se negou
a ser subjugada pelo tirano do Alpha homérico. Elas se reconhecem pelas
indumentárias que ostentarão quando chegar a batalha e os sorrisos retornam aos
olhares dos que não esqueceram que o demasiado humano ainda há de vencer.
Já em São Brás, nos
arredores do mercado - figura clássica e tombada que denuncia os horrores e a
decadência de uma memória curta e esquecida - os gritos e canções são milhares.
Minas e monas são parte de uma turba que acordou já pronta para resistir. Mas
ah! que seria do mundo sem a força que elas demonstram? São todas e muitas e
hoje tudo é delas. Brancas e pretas, amarelas e azuis. Lisas e crespas, carecas
até! Jovens e velhas, magras e gordas. São uma entre muitas e todas uma só:
Gaia mãe-filha da Terra!
Até o clima se rende
aos cantares em marcha. O Sol começa a ganhar espaço por entre as nuvens, vazadas
pela ponte arco-íris, que levou a chuva para longe dali. Bifrost é o caminho
por onde cavalgam as mulheres guerreiras. Valquírias, amazonas, icamiabas... A
sombra do inimigo é gigante no horizonte, mas infinito é o desejo delas todas
de seguir. De sonhos em punho e bandeiras ao vento, desistir para elas nunca
foi uma opção. O lema é o do filme em que herói vira vilão: “Retroceder nunca,
render-se jamais!”
Parado em uma das
esquinas da José Bonifácio, assisto a todas seguindo em frente. Milhares de
cores, de brilhos e vozes; Marias-flores que cantam e resistem aos fortes
ventos de um futuro que rosna ameaças. A noite vem caindo e brilham mais os
olhos aqui na terra que as estrelas que despontam no kaos longínquo de um
céu que continua sendo muito distante...
porra, como assim o texto acaba quando começa a ficar bom?!? não vale isso ai!!!!
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